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Reflexões de Ano Novo

Por Anne Chang, membro da Comissão Especial de Criptomoedas e Blockchain do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil

Sempre achei que fim de ano era época de festa da firma, amigo secreto e passas no arroz (#sqn). Talvez de um ou outro meme que volta todo ano para nos lembrar que, no fundo, somos todos os tios do pavê fadados a repetir uma mesma piada para uma audiência que envelhece rindo de nós e não com nós.


Esse ano, para minha surpresa, vi minhas redes sociais dando destaque a uma premiação recente que teria privilegiado homens. Como ainda não é época de Oscar, eu tive que ser informada por amigos que se trata de uma revista nacional que, ao destacar os empreendedores de 2019, publicou uma edição com 10 homens na capa.


O primeiro comentário digno de nota veio de um colunista da revista, via LinkedIn, que disse que claro, concorda que é necessário aumentar a representação feminina no mundo dos negócios. Mas que é necessário esclarecer que o principal prêmio foi dado à Magazine Luiza, da Luiza Trajano. Luiza estaria, inclusive, sentada na primeira fileira do prêmio e teria feito questão que seu filho, Frederico Trajano, recebesse o pedido e figurasse na capa da revista, já que foi sob sua gestão que a marca ganhou tamanha notoriedade. Sabendo disso, teríamos, então, talvez uma mulher entre os 9 homens eleitos empreendedores do ano.


Essa estatística, infelizmente, não me surpreende tanto.


Trabalho, há algum tempo, com empreendedores, startups e tecnologia. Temos, claro, algumas notícias mais animadoras, mas temos que entender o contexto antes de comemorarmos manchetes que, se tratadas de forma absoluta, seriam fake news. Por exemplo: ao mesmo tempo em que lemos que o investimento norte americano em startups fundadas por mulheres bateu recorde este ano, chegando a USD3,3bi em 2019 de acordo com o TechCrunch, temos, logo no primeiro parágrafo do mesmo artigo, que o número é um recorde histórico em números absolutos e apresenta um aumento substancial com relação ao ano anterior, de modo que o investimento em startups de mulheres representa 2,8% de todo o valor global. Sim, você leu certo: dois vírgula oito porcento. O autor do texto até explica que o número pode parecer inexpressivo, mas é um aumento substancial comparado aos 2,2% do ano anterior.


O relatório do Pitchbook que serve de fonte para o artigo (atualizado em 06 de dezembro de 2019) detalha ainda que 11,5% dos investimentos foram destinados a times mistos de homens e mulheres. Ou seja, 85,7% dos investimentos foram feitos em empresas fundadas exclusivamente por homens.


Considerando esses números, parece surpreendente que 9 entre 10 empreendedores do ano sejam homens?

As causas são diversas – muito mais do que um post, que é quase um tweet expandido, pode abordar -, mas fica a reflexão (ou ativismo) de teclado para fazermos ao criticarmos a revista: você se preocupa em saber mais sobre o que consome, no que investe? Cabe a uma revista dar um exemplo de diversidade ou mostrar uma realidade que muitas vezes ignoramos?


Podemos ter tokens onde quisermos. Podemos usar a cultura de cancelamento (cancel culture, tão #trending) e nos sentir melhor guilt washing toda a desigualdade do mundo ao sermos ativistas de teclado. Mas uma mudança real vem quando entendermos, de verdade, as causas que nos levam a essas situações e tentamos, em nosso dia a dia, evitar que se repitam.


Aguardo, ansiosamente, 2020. Essa é uma das minha resoluções de ano novo, você já fez a sua?


*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fisher



Anne Chang é Sócia do HCO Law, membro da Comissão Especial de Criptomoedas e Blockchain do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do

Brasil e nossa especialista no Fisher Review.



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